CRÔNICA: O DEPUTADO QUE SERVIU DE MONTARIA



ROBERTO DE SENA 

O locutor da vaquejada não conteve a surpresa diante da cena: "É ESPANTOSO SENHORES E SENHORAS PRESENTES NESTE PARQUE DE VAQUEJADA! UM DEPUTADO FEDERAL ESTÁ SERVINDO DE MONTARIA PARA UM VAQUEIRO! O VAQUEIRO TÁ METENDO A ESPORA NO DEPUTADO! TÁ GINETEANDO! O DEPUTADO TÁ DANDO COÍCE IGUAL A CAVALO, TÁ PULANDO MAIS QUE MULA BRABA".


Comecei a contar a história pelo meio (ou pelo fim). Agora que você leitor e leitora já sentiram o clima, passo a contar do começo.



Um candidato a deputado federal andava a pedir voto no sertão nordestino. Numa certa feita realizou uma reunião com um grupo de vaqueiros numa pequena cidade do interior e prometeu que se fosse eleito pagaria as inscrições de todos na vaquejada do próximo ano.



A vaqueirama vibrou entusiasmada com a promessa do candidato. O deputado deitou falação:



"NÃO SOU HOMEM DE NÃO CUMPRIR A MINHA PALAVRA, VOTEM EM MIM E NO PRÓXIMO ANO EU ESTAREI AQUI PAGANDO AS INSCRIÇÕES DE TODOS OS SENHORES NESTA GRANDE VAQUEJADA, TRADIÇÃO DO NOSSO QUERIDO NORDESTE"., reafirmou - com todas as letras - o candidato.



Um dos vaqueiros, desconfiado de promessa de político, teve a feliz ideia de gravar a promessa do deputado e guardou como se fosse ouro.



Veio a eleição, os vaqueiros fizeram campanha e todos votaram no tal candidato acreditando que ele cumprisse o que prometeu. O danado do deputado foi eleito e - como é de praxe - sumiu da região.



Os vaqueiros ligavam e só caia na caixa de mensagem ou então o número do celular não era mais o mesmo. Ninguém sabe por qual motivo candidato tem essa mania. Passou a eleição a primeira providência do cabra é mudar logo o número do telefone. É uma praga esse negócio.





No bem bom de Brasília, se refestelando no dinheiro público, o deputado ficou quase quatro anos sem dar as caras no sertão. Acontece - como diz o povo - que dor de barriga não dá uma vez só. Passou o tempo, as novas eleições se aproximavam e o deputado teve que sair da toca atrás dos votos para se reeleger. 



Esquecido da promessa decidiu ir naquela mesma cidadezinha sertaneja onde prometera pagar as inscrições dos vaqueiros na vaquejada. "Chego lá, pago umas cachaças, inventos umas histórias, digo que apresentei muitos projetos e engano aqueles bestas de novo e todos votam em mim outra vez" pensava ele.



E lá foi o deputado com essa certeza na mente. Quando chegou ao lugarejo, por uma incrível coincidência, era dia de vaquejada. Mais de cem vaqueiros estavam reunidos na entrada do Parque. O deputado parou sua caminhonete reluzente, cabine dupla, zerada, desceu, tirou os óculos escuros. Estava acompanhado de dois assessores. O parlamentar saudou os vaqueiros com entusiasmo:



- Que felicidade revê-los meus queridos vaqueiros, heróis do sertão nordestino, homens de fibra, glória de nossa pátria.



Os vaqueiros cercaram o deputado. Ele mais que depressa foi logo fazendo o convite "VAMOS TOMAR UMAS E MATAR SAUDADES MEUS VELHOS E LEAIS AMIGOS."



Um dos vaqueiros sacou da capanga um gravador. Ligou o aparelho e perguntou ao deputado:



- Esta voz  aqui prometendo que ia pagar a inscrição de todo mundo, é sua deputado?



- É minha sim - respondeu o parlamentar ressabiado e tentando arrumar uma desculpa para o não cumprimento da promessa.



- O senhor poderia explicar porque sumiu e não cumpriu a promessa e nem atendia o telefone quando a gente ligava?



Bradou um vaqueiro com cara de poucos amigos.







O deputado articulou uma desculpa



- Você sabe meu jovem, vida de deputado é agitada, são muitos os compromissos, o negócio não é fácil, muito trabalho, muita correria. A gente não tem tempo de nada. 



O vaqueiro retrucou



- Pois nós aqui também temos muito trabalho e muita correria mas não deixamos de cumprir nossos compromissos. Como o senhor prometeu que ia pagar a inscrição de todo mundo e não cumpriu eu mesmo tive que vender algumas coisas para me inscrever, inclusive vendi até o meu cavalo. O senhor não me leve a mal mas para cumprir a promessa, o senhor terá que servir de cavalo para mim.



- Como assim? Perguntou o deputado espantado com o rumo que a conversa ia tomando.



O vaqueiro explicou



- Eu vou montar no senhor para derrubar o boi e ganhar o primeiro prêmio para pagar o prejuízo que o senhor me causou com aquela promessa não cumprida. E tem mais uma coisa: o senhor vai ter que correr atrás do boi igual ao meu cavalo. Tenho que derrubar o boi de qualquer jeito. Se eu perder eu lhe sangro no meio do Parque para todo mundo ver.



O deputado argumentou que ele era uma autoridade, que não fizesse aquilo com ele, chorou, pediu perdão, tentou correr. Tudo inútil. Foi cercado pelos vaqueiros cada um com uma peixeira maior que a outra. Colocaram nele uma bride, um cabresto, uma sela e uma cia e obrigaram o nobre deputado a ficar de quatro igual a cavalo. Quando soltaram o boi de dentro do jequi, o vaqueiro meteu a espora no deputado.



- Corre miserável que eu tenho que derrubar o boi pra ganhar o primeiro prêmio. Corre filho do cabrunco! Corre filho de uma égua parida!



Não se sabe se foi milagre ou teria sido o medo da morte, o fato meu amigo e minha amiga, é que o deputado deu um pinote, deu dois, três, quatro, igual a um cavalo treinado em vaquejada, correu mais do que o boi. O vaqueiro conseguiu pegar no rabo do nelore e o derrubou de forma espetacular ganhando o prêmio de campeão da vaquejada.



O deputado desmaiou em seguida com as costelas marcadas pelas esporas do vaqueiro. Entrou em coma, foi levado as pressas para os Estados Unidos. Se recuperou, renunciou ao mandato e depois disso ninguém mais soube notícia dele. Dizem que foi esse deputado que, revoltado, entrou com um projeto para acabar com a vaquejada alegando maus tratos aos animais. Será que foi ele?



Ainda hoje quando me lembro da tal vaquejada parece que estou vendo a cena espantosa e a voz esbaforida  do locutor  narrando o inusitado fato de um deputado federal ter servido de montaria para um vaqueiro:



"INCRÍVEL SENHORAS E SENHORES, UM VAQUEIRO MONTOU NUM DEPUTADO, USOU UMA AUTORIDADE PARLAMENTAR COMO SE FOSSE UM CAVALO, METEU A ESPORA NO DANADO E PARA SURPRESA DE TODOS O DEPUTADO CORREU MAIS DO QUE UM CAVALO E O VAQUEIRO CONSEGUIU DERRUBAR  O BOI E GANHOU O PRIMEIRO PRÊMIO! SENSACIONAL! FANTÁSTICO! CONTANDO NINGUÉM ACREDITA. SÓ NO SERTÃO PARA ACONTECER UMA FAÇANHA COMO ESSA. EM 30 ANOS NARRANDO VAQUEJADA NUNCA EM MINHA VIDA TINHA PRESENCIADO UM FATO DESSES. FICA A SUGESTÃO PARA O SUPREMO TRIBUNAL  FEDERAL: A PARTIR DE AGORA QUANDO UM POLÍTICO FOR PEGO PRATICANDO CORRUPÇÃO AO INVÉS DE SER JULGADO PELA CORTE É MELHOR SER MANDADO PARA UMA VAQUEJADA SERVIR DE MONTARIA PARA OS VAQUEIROS. PELO MENOS AQUI ELE TERIA QUE CUMPRIR A PENA COM OS RIGORES DA ESPORA NAS COSTELAS."



O vídeo com o deputado servindo de montaria viralizou na internet. Dizem que depois deste fato os deputados estão com mais medo de irem a vaquejada do que de serem citados na delação do Eduardo Cunha.
CRÔNICA: O DEPUTADO QUE SERVIU DE MONTARIA CRÔNICA: O DEPUTADO QUE SERVIU DE MONTARIA Reviewed by Mural do Oeste on sábado, outubro 29, 2016 Rating: 5

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