MINHA HOMENAGEM A BELCHIOR, UM POETA QUE FEZ MINHA CABEÇA E ME AJUDOU A VER O MUNDO COM OLHOS DE POESIA

Trocando ideia com Belchior em Barreiras


Roberto de Sena
Mural do Oeste

O cantor e compositor Belchior com suas canções profundas, suas letras filosóficas, sofisticadas e libertárias, foi - juntamente com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Ivan Lins, Zé Ramalho, Tom Jobim, Milton Nascimento, Vinicius de Moraes e tantos outros desse time - um dos formadores do meu gosto musical. 

Da minha forma de ver o mundo. 

Através da música deles  tive noção de que a arte pode nos levar muito além. Pode nos fazer pessoas novas, melhores, menos egoístas e muito mais solidárias, preocupadas com as transformações sociais, com a justa divisão de rendas e com um mundo mais  justo e onde o ser humano possa viver em paz.

Belchior foi uma poeta das inquietações, que cantava com genialidade, a beleza e a perplexidade do mundo em que vivemos e que, muitas vezes nos assombra.

A primeira vez que ouvir Belchior, acho que foi em 76 (se não me falha a memória). 

Eu andava pelo centro de Barreiras e parei em frente a uma loja de discos chamada PINTA SOM que pertencia a um grande ativista cultural de Barreiras, Pinta Machado, tio do blogueiro e diretor de Esportes da Prefeitura de Barreiras, Fernando Machado e tio, também, do Procurador Túlio Viana. De repente ouço aquela canção diferente, aquela voz rouca, marcante, bela e melancólica. "Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes vindo do interior".

Foi tiro e queda.

Comprei o disco e passei o resto da tarde debatendo com amigos, todos da mesma idade, estávamos todos na casa dos 16, 17 anos. O que nos movia era o desejo de revolucionar através da arte. Na vitalidade e na inocência da juventude sonhamos em fazer coisas grandes.

Deste dia em diante Belchior com suas canções, seus escritos, passou a ser um referencial da minha juventude. Mais do que à escola, foram a poesia e a música que ensinaram-me a pensar, a escrever, a publicar livros, a compor músicas com meus parceiros queridos. A reconhecer a grandeza da arte na vida de qualquer pessoa.

A música de Belchior me acompanhou e me acompanhará enquanto eu estiver neste mundo desfrutando da beleza, da perplexidade e da alegria de viver.

Se recusando a enjaular sua arte, não aceitando que lhe ditassem regras, não subordinando sua música aos interesses comerciais, Belchior disse não ao sistema. 

Num protesto silencioso mas assertivo, Deixou de fazer shows, de gravar discos e foi viver recluso, longe da guerra de uns contra os outros pelo vil metal, como cantou em uma de suas músicas imortais.

É talvez um ponto de contato com e poesia beat de Allen Ginsberg ou ainda um sopro de Woodstock. Quem sabe?

Estive com ele por vários vezes, em Salvador quando ele me recebeu no camarim do teatro antes de um show, em Brasília num jantar com amigos e em Barreiras quando fiz uma longa entrevista que foi publicada, na época, no jornal Folha do Vale.

Um homem inteligentíssimo, um artista à frente do seu tempo, com quem você poderia passar horas tomando vinho e conversando sobre cultura, literatura, filosofia, política, futebol, imprensa e o que mais viesse. Um cidadão do mundo. Um ser humano que compreendia como poucos a realidade que o cercava e, talvez, por ter essa compreensão, optou por fugir dela, da sua máquina de moer carne humana, do seu liquidificador de triturar cérebros.

Já naquele tempo Belchior mostrava se refratário com os rumos que a indústria fonográfica estava tomando. Mostrava-se desgosto inclusive com a mídia que empurra garganta abaixo no povo humilde, o lixo musical como se fosse arte. Ele disse STOP! E procurou outro caminho.


Morreu dormindo, ouvindo música clássica e deve ter sido recebido na outra dimensão por uma orquestra de anjos.

Finalizo com alguns dos versos de Belchior que me marcarão para sempre:

ENQUANTO HOUVER ESPAÇO, CORPO, TEMPO E ALGUM MODO DE DIZER NÃO, EU CANTO.

EU QUERO É GOZAR NO SEU CÉU,
PODE SER NO SEU INFERNO
VIVER A DIVINA COMÉDIA HUMANA
ONDE NADA É ETERNO


A NOITE FRIA ME ENSINOU
A AMAR MAIS O MEU DIA
E PELA DOR EU DESCOBRIR
O PODER DA ALEGRIA
E A CERTEZA DE QUE TENHO
COISAS NOVAS PRA DIZER.


A MINHA HISTÓRIA É TALVEZ IGUAL A SUA
JOVEM QUE DESCEU DO NORTE
E QUE NO SUL VIVEU NA RUA
E QUE FICOU APAIXONADO E VIOLENTO


EU NÃO ESTOU INTERESSADO
EM NENHUM FANTASIA
EM NENHUMA TEORIA
NEM NO ALGO MAIS
AMAR E MUDAR AS COISAS
ME INTERESSA MUITO MAIS

VOCÊ NÃO SENTE E NEM VÊ
MAS EU NÃO POSSO DEIXAR 
DE DIZER MEU AMIGO
UMA NOVA MUDANÇA EM BREVE VAI ACONTECER
O QUE ONTEM ERA JOVEM E NOVO
HOJE É ANTIGO E PRECISAMOS TODOS REJUVENESCER

MINHA DOR É PERCEBER
QUE APESAR DE TERMOS FEITO
TUDO, TUDO QUE FIZEMOS
AINDA SOMOS OS MESMOS
E VIVEMOS COMO O NOSSOS PAIS

AO PASTOR DA MINHA IGREJA
REZA QUE ESTA OVELHA NEGRA
NUNCA VAI FICAR BRANQUINHA
NÃO VENDI A ALMA AO DIABO
O DIABO NÃO GOSTOU DO NEGOCIO
DE QUERER COMPRAR A MINHA 

ESTAVA MAIS ANGUSTIADO
QUE O GOLEIRO NA HORA DO GOL
QUANDO VOCÊ ENTROU EM MIM
COMO UM SOL NUM QUINTAL


MAS VEIO UM TEMPO NEGRO
E A FORÇA FEZ COMIGO
O MAL QUE A FORÇA SEMPRE FAZ
EU NÃO SOU FELIZ MAS NÃO SOU MUDO
E HOJE EU CANTO MUITO MAIS


Finalizo

Tenho pena e medo do que a industria fonográfica e a mídia estão obrigando nossos jovens a consumir. Músicas de quinta categoria que emburrecem e alienam. Torço para que a grande música volte as escolas, as praças e que seja um novo farol a iluminar uma nova época.

A boa música, a poesia e a arte, foram salvações para mim e para muitos. E ainda pode ser para muito mais gente.
MINHA HOMENAGEM A BELCHIOR, UM POETA QUE FEZ MINHA CABEÇA E ME AJUDOU A VER O MUNDO COM OLHOS DE POESIA MINHA HOMENAGEM A BELCHIOR, UM POETA QUE FEZ MINHA CABEÇA E ME AJUDOU A VER O MUNDO COM OLHOS DE POESIA Reviewed by Redação Mural do Oeste on terça-feira, maio 02, 2017 Rating: 5

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